O que foi que mudou

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Nunca fui muito dada a estas coisas da net. Começei à cerca de 3 anos quando uma das minhas irmãs me deu o endereço de um site sobre Angola. O interesse que eu mantinha por Angola, era assim mais ou menos morno, cozinhado a fogo lento. Nem por isso deixei de estar presente em festivais de gastronomia africana ou de incutir o gosto pelo funje nas crianças que nasciam na família, de visitar exposições no Museu de Antropologia do meio académico por onde andava enquanto jovem adulta, de assistir a espectáculos de rua proporcionados por uns quantos africanos que pretendiam ganhar algum dinheiro, enfim, de tentar ver e ler tudo o que apanhasse que  pudesse manter-me ao corrente.

Cheguei a dar comigo a chorar “baba e ranho” quando, subitamente, Malange era notícia dos telejornais e a mostravam, a correr, deixando-me com a sensação de não ter visto ou sabido o suficiente, tipo, quero mais, ou a ponderar sobre a razão da minha emoção. Chegava a pegar no telefone e ligar para casa para perguntar: “viste Malange?” como se disso dependesse a vida, a nossa vida. E logo me assaltavam perguntas como “e a Delfina, será que ainda é viva? Que dificuldades terá passado?” , “E o João, aquele diabrete que me atazanava a vida, será que pegou em armas? Ter-se-á alguma vez arrependido de não ter vindo conosco?”. Eu só queria era ver a minha casa, a minha rua, as ruas que percorri a pé vezes sem conta, de casa para o colégio, para o parque infantil, para casa da tia, saber se a campa da avó estava intacta, como se tudo isso pudesse servir para me deixar em paz.

Afinal eu era de Malange, nascida em Malange e por isso quando me perguntavam donde era, naturalmente eu respondia :”sou malangina”. Malangina, palavra estranha para quem nunca a tinha ouvido e que, talvez por fazer lembrar o fruto, passei a ser apelidada de tangerina (o que até nem era nada mau se pensar em todas as coisas que já me chamaram).

Uma  vez (re)descoberta  Angola, através do reavivar de memórias, da emoção do (re)encontro de pessoas que já tinha esquecido, pela visita frequente a esse site, foi como se do fogo lento passasse à erupção do vulcão que estava adormecido. Angola, os angolanos e eu própria passamos então para um outro plano de entendimento.

É da minha participação nesse site que eu percebo esse exasperante e irritante fenómeno que é: quem quer que leia um texto faz uma interpretação diferente da do autor, infere, conclui, baseado na sua visão do mundo, nos seus valores e na sua própria experiência de vida. Não será por isso que, quando um autor torna pública uma obra sua, ela deixa de lhe pertencer para passar a ser de quem a vê, de quem a lê, de quem a ouve, de quem a toca, e que passa a ter tantas versões quantas as pessoas que a leram, ouviram, tocaram? A leitura é sempre parcial e altera o significado original que lhe foi dado pelo autor. Para quem escreve, isso é uma “faca de dois legumes”, “um pau de dois bicos”. Pode até ser fonte de irritação e de mal entendidos. Pior do que essa mutação pública do seu pensamento é a fragmentação dele, feita por pessoas que nem se dão ao trabalho de ler o texto inteiro com atenção ou utiliza os sues próprios filtros para o fazer. Leitura em diagonal dá sempre para o torto e pode até acontecer a quem lê, que a resposta para qualquer pergunta sua é completamente óbvia e, claro, escancarada nas linhas do texto. Pura ilusão.!

Somos todos (ou não) ficção porque a realidade, quando é escrita e não se publica, costuma ter personagens verdadeiramente encorpados e extravagantes, não o café aguado que somos obrigados a engolir hoje. A revolução tecnológica, que deveria estar do nosso lado, afinal não ajuda. É há sempre a outra face da moeda – as coisas e as pessoas não são o que parecem e o oposto também é verdade.

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